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13.1.17

A aventura de crer

 
 
Pensam alguns que a fé verdadeira nunca é assaltada pela dúvida, por períodos de profunda escuridão, de secura dos sentimentos e noite profunda do entendimento, que nos impede de sentir, de compreender, de articular nossa afirmação mais fundamental da existência: "Eu creio!"

Todo crente é peregrino diante Daquele que, antes de ser Palavra, é Silêncio.

Deus é Mistério infinito,
Deus é Noite escura que nos deixa cegos com Sua luminosidade,
Deus é o Santo, o Separado, o Diverso de tudo o mais,
Radicalmente incomparável!
Deus é Aquele que Se revela escondendo-Se
E Se esconde revelando-Se...
Deus... Como percebê-Lo, esquadrinhá-Lo, ter a pretensa  soberba de compreendê-Lo,
A Ele, que tem mundo inteiro escondido na palma da Sua mão?

Eis: estamos Nele, tudo está Nele: na palma da Sua mão!

Assim, caminhar com o Senhor exige radical atitude de fé humilde e peregrina! Uma fé que não atravesse o deserto das perguntas muitas vezes sem resposta,
Uma profissão de fé que não experimente, por vezes, as pesadas noites do não-sentir, do não-saber, do não mais ter perspectiva, é uma fé que não foi suficientemente provada... Não conheceu o verdadeiro e tremendo cadinho que a faz amadurecer entre lágrimas, cansaços, lutas e procuras...

Crer não é compreender tudo!

Crer exige a tremenda e sempre desafiadora pobreza de colocar-se diante de um Deus que é

Mistério, um Deus que não nos presta contas de Seus atos e Seus silêncios, porque já nos disse tudo e tudo de Si nos explicou na Cruz e na Ressurreição do Seu Filho.

E, no entanto, crer é perguntar pelo Senhor,
É sempre, de novo, repor a pergunta sobre Ele!
Crer é procurá-Lo,
Por Ele ansiar,
Por Ele esperar,
É antevê-Lo em tudo,
É divisar, de modo misterioso, Seus passos benditos,
De modo que o coração teimoso e cansado advinha:
"Ele esteve aqui! Ele passou por aqui!" - E tudo, de repente, torna-se bendito,
Só pela presença Dele, pela passagem Dele, pelos rastros Dele!
Crer é teimar em viver assim: nômade, andarilho, peregrino,
Até compreender que procurar é já encontrá-Lo
E encontrá-Lo é pôr-se sempre, de novo, a procurá-Lo!

A fé é uma adesão ao Mistério,
É um constante e sofrido pôr-se em marcha, como Abraão,
Pôr-se em saída, como Moisés...

Vamos, peregrino, como eu!
Vamos de novo,
Vamos, que é Páscoa, é Passagem
- a vida neste mundo é tua embarcação, não tua morada!
Vamos como na Noite da Vigília:
O Cristo feito Círio à frente, luminoso, no meio da noite do mundo e da fé;
E nós, atrás,
Sua pobre Igreja,
Por vezes cansada,
Por vezes confusa,
Sempre por Ele sustentada na potência do Seu soberano Espírito!

Vamos! Vamos!
Digamos ainda, de novo, teimosos:
"Senhor, eu creio! Sustenta minha pobre fé, até o fim,
Até a plena Visão! Ámen!"

A 12 Novembro 2016

http://visaocristadomhenrique.blogspot.pt/2015/09/a-aventura-de-crer.HTML
 

18.7.16

Uma Luz tão intensa

Deus: uma Luz tão intensa que nos cega
O Eclesiástico, falando da relação do Senhor Deus com Moisés, diz assim:
 
“Na fidelidade e doçura ele o santificou,
Escolheu-o entre todos os viventes;
Fez-lhe ouvir a sua voz
E o introduziu nas trevas” (Eclo 45,4-5).
 
Estranhas e belas, estas palavras... Elas exprimem muito bem o modo de agir de Deus com os seus amigos, com os místicos de todos os tempos...
 
Por um lado, o Senhor educa seus amigos; vai, pouco a pouco, conduzindo-os com fidelidade e doçura, atraindo-os a si, santificando-os (isto é, fazendo-os entrar na sua vida bendita, na
sua santidade bem-aventurada).
 
Interiormente, de modos inexplicáveis, o Senhor vai falando aos seus, vai educando-os, vai entabulando com eles um verdadeiro diálogo de amizade e amor...
Mas, por outro lado, vai introduzindo-os nas trevas. Isto mesmo! Quando mais Deus se aproxima de alguém, mas faz o fiel perceber o quanto Ele está para além de tudo, o quanto não
pode ser abarcado, compreendido, domesticado! E, então, cresce a saudade medonha daquele que foi conquistado pelos carinhos do Senhor e, por outro lado, aumenta mais e mais a
consciência da distância: Deus é Grande demais, Santo demais, Incompreensível demais, Luminoso demais para caber nas nossas pobres medidas!
 
Que resta ao fiel? Abandonar-se, entregar-se, com total pobreza interior, com doce confiança naquele misterioso Amigo que se revela escondendo-se. Ele é uma Luz tão intensa que nos
cega! Por isso dizia São João da Cruz: “Deus, para nós, nesta vida, é nem mais nem menos que noite escura!”
 
De noite, mesmo de noite, não nos cansemos de buscar a Fonte! Deixemo-nos guiar por nossa sede, como a corça que procura o riacho... Que assim nossa alma procure o Senhor! Ó
Senhor, preenche meu desejo com tua luz, tua doçura e tua paz! Recolhe em ti todas as minhas sedes!

17.6.16

Descobrir no Silêncio a Palavra

Santo Inácio de Antioquia
 
"Quem possui a palavra de Jesus, este em verdade, pode ouvir o seu silêncio, a fim de ser perfeito".
 
Esta encantadora afirmação de Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir do século I, é cheia de profundo significado.
 
Estamos acostumados a buscar o Senhor na sua Palavra. Obviamente, Palavra do Senhor são as Escrituras Santas. Mas, palavras do Senhor para nós, de certo modo, é tudo quanto nos vai acontecendo e nos fazendo divisar a presença de Deus, que conduz a nossa vida. Isso é um grande passo: aprender a escutar o Senhor nas suas palavras...
 
Mas, há ainda um passo maior, mais perfeito: é quando não compreendemos, quando tudo parece sem sentido, noite fechada, quando tudo parece silêncio de Deus para nós... Quando, angustiados e quase sufocados, exclamamos: "Onde está Deus? Cristo meu, por que te escondes?" O silêncio de um fracasso, de uma doença absurda, de uma humilhação, de uma falta, de uma chaga moral... Também aí, é necessário aprender a escutar Aquele que nos fala na Palavra e nos fala no Silêncio: "Quem possui a palavra de Jesus, este em verdade, pode ouvir o seu silêncio, a fim de ser perfeito" - este o sentido da frase de Santo Inácio.
 
Quando escreveu tal pérola preciosa, ele mesmo estava sendo levado para Roma por dez soldados, para ser jogado às feras. Ele, santo Bispo e Mártir de Cristo, foi perfeito, pois soube escutar o Senhor na Palavra e no tremendo Silêncio... Aliás, para isso escutamos tanto a Palavra do Senhor: para na hora do seu Silêncio aprendermos a ouvi-lo também aí...
 
Concede-nos, Cristo-Deus, esta graça! A ti a glória!
 
 
[Meditar, Santo Inácio de Antioquia, Dom Henrique]
 

A oração, vital como a água – III

Vamos ao último artigo destes três sobre a oração. A questão, agora, é: como rezar?

Vou, primeiramente, apresentar uma classificação bem simples dos tipos de oração. Os dois grandes modos de oração são oração vocal e oração mental. A oração vocal é qualquer oração que rezamos decorada. Por exemplo: mesmo quando rezamos somente com a mente o Pai-nosso ou a Ave-Maria, estamos fazendo oração vocal; quando rezamos um salmo também estamos fazendo oração vocal. É o caso ainda das jaculatórias, aquelas orações curtinhas que nos fazem permanecer durante o dia todo na presença de Deus. Quanto à oração mental, é a oração espontânea, aquela que brota do nosso afecto e da nossa imaginação com total criatividade.

A vantagem da oração mental é que empenha mais a nossa atenção e o nosso afecto, além de nos fazer rezar nossas preocupações e situações existenciais.

Quanto à oração vocal, tem a grande vantagem de nos manter na presença de Deus seja em que situação emocional estejamos. Tristes ou alegres, atentos ou desatentos, devotos ou áridos, a oração vocal tira-nos de nós mesmos e faz-nos estar na presença de Deus. Isso é muito importante, porque ensina-nos que o centro da nossa oração não somos nós com nossos sentimentos e preocupações, mas unicamente o Senhor, que deve ser amado e buscado acima de tudo. Além do mais, a oração vocal livra-nos do subjetivismo e da necessidade de estar sempre inventando palavras e assuntos para rezar.

Neste sentido, a melhor oração vocal são os textos da Sagrada Escritura. Isso mesmo: rezar com a Bíblia, rezar repetindo a Palavra de Deus, sobretudo os salmos. Quem reza a Liturgia das Horas pode experimentar de modo privilegiado esta realidade. Basta recordar que quando os judeus dizem: "Eu medito nas tuas palavras", estão querendo dizer: "Eu repito com os lábios, decoradamente, as tua palavras". Para a Bíblia, meditar é repetir a Palavra de Deus, ruminando-a com os lábios, o coração, a mente e o afecto.

Quanto aos movimentos interiores, a oração pode ser de acção de graças, de súplica, de intercessão, de louvor, de pedido de perdão. Em todas elas, o importante é que nos abrimos para o Senhor, reconhecendo nossa incapacidade de gerenciar nossa vida sozinhos, como se nossa existência fosse nossa de modo absoluto. Quem reza mantém-se na presença de Deus; quem reza vai aprendendo a deixar que Deus seja Deus na sua vida.

Finalmente, de modo concreto, como rezar? Reze diariamente; reze o dia todo! Como? Diariamente. Tenha, durante seu dia, um momento de cerca de 20 minutos, meia hora, para a oração. Comece acalmando seu corpo e seus pensamentos. Peça ao Santo Espírito que sustente sua oração. Pegue a Palavra de Deus. Pode ser o evangelho do dia, um salmo, ou outro texto que você escolher. Leia-o com calma, devotamente, com tranquilidade. Enquanto lê, se uma palavra tocou você, pare ali, repita aquela palavra, saboreie-a. Acontecerá frequentemente que virão afectos, sentimentos, palavras nos seus lábios. Deixe que venham! Você está rezando!

Deus lhe falou e você está respondendo! Quando forem passando as palavras, continue a leitura do texto sagrado até terminar. Se quiser, faça mais um pouco de oração e termine sempre com um Pai-nosso e uma Ave-Maria. É importante que deixemos sempre que a Escritura questione a nossa vida, comprometendo-nos com um processo de constante conversão ao Senhor e aos irmãos. Caso você tenha lido e não tenha sentido nada, nada o tenha empolgado, não há problema; não se preocupe. Terminada a leitura do texto sagrado, simplesmente peça ao Senhor, com poucas palavras, que a sua Palavra dê fruto no seu coração e no chão da sua vida.

Se você passar por momentos tão áridos e dispersos que não conseguir rezar de modo algum, pegue sua Bíblia, tome um salmo e vá copiando-o num caderno. Você está rezando: com as mãos, com os olhos, com a atenção e com o desejo sincero de agradar a Deus. Nunca esqueça que o valor da oração não está nos sentimentos, mas no desejo sincero de agradar a Deus e ser-lhe fiel.

Além desse momento privilegiado, é importante passar o dia na presença de Deus. Como fazer?

Existem várias possibilidades. Um excelente modo é a reza do terço. Pode rezá-lo aos poucos, durante todo o dia, num momento um mistério, num outro momento, outro mistério. Assim você vai atravessando o seu dia na cadência dessa oração tão cara aos cristãos, com Maria, a Mãe de Jesus. Não se preocupe muito em dizer com atenção cada Avé-Maria. O importante é dizê-las de modo cadenciado, para que permaneça aquele clima de paz, que o irá colocando na presença de Deus. Não é a palavra em si o que mais interessa, mas o estar na presença de Deus. Além do terço, pode-se usar também as jaculatórias (que hoje chamam de mantra), isto é, frases curtas decoradas, que tantas vezes podemos repetir durante o dia. Por exemplo: "Meu Jesus, misericórdia!" ou "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim" ou "Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a vós!" São orações vocais, simples, mas que têm um efeito enorme: mantém-nos na presença de Deus.

Finalmente, a oração mais importante e indispensável para o cristão: a oração litúrgica por excelência, isto é, a Missa. Ali, o próprio Cristo nos une à sua oração de modo eminente. É a Igreja reunida em santa assembleia que é convocada para ouvir a Palavra e dizer "Amém" e, depois, celebrar o Sacrifício eucarístico da Ceia do Senhor. Aqui, a nossa vida de oração chega ao máximo. Já não somos nós quem rezamos, mas o próprio Cristo, que na força do Espírito, nos eleva ao Pai.

Eis aqui, um simples e prático guia de oração.
 
 
[Oração, Dom Henrique]
 
 
 

13.6.16

A oração, vital como a água – II

 
No artigo anterior, respondemos a questão "que é rezar?". Agora, vamos à nossa segunda pergunta:

 
Para que rezar?


Pensamos logo na oração como uma arte para conseguir de Deus aquilo que queremos. Trata-se de uma visão pobre e enganada da oração. Já afirmei, no artigo passado, que rezar é colocar-se diante de Deus em atitude de escuta, de acolhimento e disponibilidade. Mas, para que isso?


Vimos de Deus, por Ele e para Ele fomos criados e em tudo dependemos dele. Ele é nossa realização, nossa plenitude, a saciedade do nosso coração. Somente abertos para ele, vivendo em comunhão com ele, seremos felizes. Mas, temos enorme dificuldade em perceber isso, em viver essa realidade. Nossa tendência é viver a vida centrados em nós mesmos, como se fôssemos o umbigo do mundo e o centro do universo: julgamos tudo a partir de nós mesmos, analisamos tudo segundo nossos interesses e perspectivas, colocamos nossa segurança e nosso apoio em tantas coisas, em projectos, em pessoas, em situações que julgamos importantes para nós... Procuramos ancorar nossa existência em realidades tão passageiras... e temos a ilusão de sermos auto-suficientes, de pensarmos que a vida é nossa de um modo absoluto. Ora, viver assim é viver sem sermos autênticos, é viver uma ilusão: a ilusão de ser Deus! E todos nós temos essa tendência de absolutizar o que é relativo e relativizar o que é absoluto: "Sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal" (Gn 3,5)


Pois bem, a oração tem o efeito de nos colocar continuamente diante de Deus, único Absoluto. Quando rezamos, vamos deixando que Deus Se vá tornando, de facto, Alguém, na nossa existência; não uma ideia, mas uma Pessoa; não algo, mas Alguém! Vamos, aos poucos, aprendendo a ver-nos e ver o mundo à luz de Deus; na luz d'Ele, vamos começando de verdade a ver a luz.


Deus vai se tornando o centro da nossa vida e vamos, pouco a pouco, nos relativizando a Deus e colocando tudo em relação a ele e em função dele. A oração, portanto, tira-nos do centro e nos faz perceber que Deus é o verdadeiro centro e que nós somos relativos, relativos a Ele. A oração ensina-nos a colocar Deus no lugar de Deus, nos faz deixar que Deus seja Deus de verdade.


Vamos percebendo com todo o nosso ser, que nossa existência depende dele e somente n´Ele seremos nós mesmos porque seremos aquilo para que fomos criados. Deixando que Deus seja o centro, ficamos livres do enorme peso que nos tornamos para nós mesmos, com nosso instinto desarrumado de auto-afirmação compulsiva. Pensemos no nosso terrível fardo: a tendência de nos afirmar diante dos outros em tudo: na vida afectiva, profissional, social, económica... A tendência de controlar nosso destino e o dos outros... É um verdadeiro inferno! A oração nos liberta disso tudo e nos amadurece. O verdadeiro orante sabe que sua vida está nas mãos de Deus e tem valor porque é valiosa aos olhos de Deus. O orante não é um tolo passivo e alienado, mas alguém que sabe que Deus tem um projecto para sua vida e para a vida do mundo e, assim, constrói responsavelmente sua existência e procura melhorar a realidade à sua volta, mas sem stress, sem aquela tensão de quem não vê senão a disputa que é a vida, com a concorrência, os acasos e a competição louca do cada um por si.


Quem reza, compreende que, para além de tudo, há Alguém amoroso, providente, justo que é parceiro no nosso caminho. É interessante, mas o verdadeiro amigo de Deus, ao mesmo tempo em que se relativiza, percebe o seu valor diante de Deus, sente-se amado, aconteça o que acontecer e, assim, encontra forças para enfrentar os desafios da vida e vencê-los.



Note-se que a oração não tem como finalidade primeira conseguir de Deus as coisas, mas nos fazer perceber a verdadeira realidade: quem é Deus e quem somos nós. Assim fazendo, faz-nos viver uma existência autêntica e feliz.



Somente a oração nos faz compreender o verdadeiro sentido de todas as coisas, porque começamos a ver da perspectiva de Deus e não da nossa própria. Sem ela, confundiremos Deus connosco mesmos, Sua vontade com a nossa. Sem rezarmos, perderemos de vista o sentido do que nos acontece, exaltando-nos de modo bobo quando as coisas nos ocorrem favoravelmente e nos prostrando de modo infantil quando um desastre atinge nossa vida. Portanto, não há modo de viver de verdade como crente, de ser alguém aberto para o Transcendente, sem a capacidade de rezar.



Se pensarmos que o cristianismo não é uma ideologia, uma teoria sobre Deus, mas uma relação viva e dinâmica com Ele, então poderemos perceber que de modo algum se pode ser cristão sem o exercício contínuo e perseverante da oração. Por isso, os místicos e sábios cristãos sempre advertiram que ninguém nos mostre outro caminho para Deus que não a oração. Sem ela, todo o resto cai por terra na nossa relação com o Senhor. Nem uma boa ação que fizéssemos, nem a maior obra de caridade que executássemos seria realmente por amor a Deus fora do terreno da oração. Poderíamos, sem rezar, fazer, no máximo, obras de filantropia, como o Lions e o Rotary Club ou obras motivadas por uma ideologia, como os partidos políticos e as ONGs, mas nunca obras realmente cristãs.
 


 
 
[Oração, Dom Henrique]

 

9.6.16

A oração, vital como a água – I

 
 O Senhor Jesus rezou e nos mandou "rezar sempre, sem jamais esmorecer" (Lc 18,1). Os místicos e os pregadores cristãos sempre insistiram na importância da oração. Por quê? Pra quê rezar louvando, se Deus não precisa de nosso louvor? E pra quê rezar pedindo, se Deus sabe do que precisamos? Será mesmo o homem capaz de modificar o desígnio de Deus, que é infinito? Pode o homem argumentar com Deus, de modo a fazê-lo mudar de ideia? Neste artigo e nos próximos, proponho-me refletir sobre estas três questões: Que é rezar? Para que rezar? Como rezar?

 
 
Que é rezar?

De modo apressado, na ponta da língua, afirmamos: rezar é conversar com Deus, é falar com ele. Santa Tereza, no seu "Caminho da Perfeição", deu uma definição que se tornou clássica: "Rezar é tratar de amor com quem sabemos que nos ama". Tudo isso é verdade, tudo isso é rezar. Mas, biblicamente, a oração é bem mais que isso. Não se trata primeiramente de conversar com Deus, mas de colocar-se diante dele, caminhar na sua presença, aberto para ele. Observe-se que nas definições dadas, parece que rezar é coisa nossa: falamos e Deus escuta; tomamos a iniciativa e Deus acolhe. E não é isso! Na oração, o sujeito é primeiramente Deus, e não nós mesmos. É Ele quem fala, é Ele quem toma a iniciativa: "Ouve, meu povo, eu te conjuro; oxalá me ouvisses, Israel!" (Sl 80, 9)

Rezar é, antes de tudo, uma atitude de abertura e escuta diante do Senhor que vai falar: "O primeiro mandamento é: Ouve, ó Israel..." (Mc 12,29). A oração só começa e somente é possível quando nos colocamos nesta atitude de total disponibilidade ante o Senhor, na obediência e no reconhecimento que Ele é o Senhor: "Quero ouvir o que o Senhor irá falar..." (Sl 84,9); "Ah! Se meu povo me escutasse, se Israel andasse sempre em meus caminhos... (Sl 80,14). Um belíssimo exemplo de disponibilidade do verdadeiro orante é o salmo 118.
 
Todo ele é um cântico apaixonado à Lei de Deus. Lei, aqui, no sentido de vontade, de desígnio, de plano, de projecto amoroso do Senhor a nosso respeito: "Que meus caminhos sejam firmes para eu observar teus estatutos. Eu te procuro de todo o coração, não me deixes afastar de teus estatutos. Bendito sejas, Senhor; ensina-me os teus estatutos" (Sl 118,5.10.12). Reza de verdade quem de verdade não fala primeiro ao Senhor, mas primeiro se dispõe a escutá-lo: "Fala, Senhor, que teu servo escuta" (1Sm 3,10). A primeira súplica de quem deseja rezar de verdade é esta: Senhor, "dá a teu servo um coração que escuta" (1Rs 3,9).
 
 
Mas, onde se pode escutar o Senhor falar? A pergunta é importantíssima. Pode ser que pensando escutá-Lo, só escutemos a nós mesmos, a nossos caprichos, ao nosso próprio coração. Como escutá-lo de verdade? Primeira e fundamentalmente, na Sagrada Escritura, lida-escutada num espírito de oração, de disponibilidade, de gratuidade. Nunca deveríamos ler-escutar a Palavra de Deus simplesmente para encontrar respostas. Ela deve ser frequentada gratuitamente, sem outra pretensão que não aquela de um coração que deseja ouvir o seu Amado, aquele que o enche de vida, paz e serena alegria: "Os preceitos do Senhor são retos, alegram o coração; o mandamento do Senhor é claro, ilumina os olhos. Suas palavras são mais doces que o mel escorrendo dos favos" (Sl 18,9-10.11b). Ler-ouvir a Escritura é ouvir o coração de Deus; por isso ela deve ser lida com um espírito de fé, um espírito de total confiança e disponibilidade em relação ao Senhor. A primeiríssima atitude de quem reza não é falar - e muito menos tagarelar diante de Deus: é escutar! "Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como os gentios, que imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles!" (Mt 6,7-8a).
 
Esta frequência à Palavra, esta escuta amorosa e fiel do coração de Deus, vai nos fazendo conhecer e admirar tudo quanto Ele fez, o que ele falou, a sua fidelidade, o seu amor, o seu modo de tratar o seu povo, o excesso da sua misericórdia ao nos enviar o Filho Jesus e nos divinizar com o Espírito Santo. Assim, o fiel vai conhecendo o coração de Deus, vai se encantando com o Senhor a aprendendo a nele confiar e a ele se abandonar. A escuta vai nos fazendo homens e mulheres amigos de Deus, homens e mulheres de Deus, que começam a sentir o coração seu coração divino e a compreender os modos do Senhor. Esta escuta perseverante e fiel da Escritura, irá nos ensinando a escutar o apelo de Deus, seu desígnio para nós, na palavra de Igreja, nos acontecimentos da vida, nos apelos dos irmãos e em tudo que nos aconteça. Aí sim: tudo irá se tornando uma palavra do Senhor para nós. Mas, estejamos atentos: somente a partir da Palavra em sentido estrito, que é a Escritura Sagrada, aprenderemos a discernir as palavras de Deus nas outras realidades da vida. Sem partirmos da Escritura, escutaremos nas outras ocasiões somente a nós mesmos e nossos caprichos.
 
Esta atitude de escuta suscita no nosso coração uma resposta, cheia de confiança, admiração e amor, que brota do mais profundo de nós. Então, cantaremos, agradeceremos, louvaremos, pediremos ou, simplesmente, choraremos: "Eu derramo minha alma perante o Senhor" (1Sm 1,15b). Agora sim: a escuta provocou a resposta; resposta dócil, obediente, amorosa, adorante, admirada! Então, estabelecer-se-á o diálogo que é fecundo, que não é tagarelice, que é "tratar de amor com quem sabemos que nos ama". Deus falou e nós respondemos com a palavra, com o afecto, com o louvor, com as lágrimas, com o silêncio contemplativo, com a vida.
 
 
 
 
[Oração, D. Henrique]